quarta-feira, 18 de setembro de 2013

FIM DE CASO: Depois de dez anos, acaba o casamento de Eduardo Campos com o PT

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a presidente Dilma Rousseff Foto: Hans von Manteuffel / O Globo


O Meu Araripe antecipou este rompimento em 2010. Não convém agora narrar os fatos outra vez.  Fiquem com a narrativa do Sistema Globo.

Ao final, o nosso comentário.

Rompimento do PSB com o governo irá além da entrega de cargos, diz Campos

BRASÍLIA. Foi feito um strike e todos os pinos foram derrubados. Essa foi a imagem usada ontem à noite, em encontro com aliados mais próximos do PSB, pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para explicar que o rompimento que hoje será anunciado de uma aliança de 10 anos e nove meses com o PT não se resume a simples entrega dos cargos na Esplanada. Para ele, para evitar uma confusão na cabeça do eleitor, é preciso ficar claro que o PSB está deixando o governo, não é mais governo e agora vai ser solidário e apoiar apenas no que for de interesse do pais.


Campos fez questão de cumprir o ritual de comunicar a decisão ao ex-presidente Lula, sem deixar espaço para pedidos de reconsideração. A conversa, antes da oficialização, foi uma deferência a Lula, pois Campos não queria que o ex-presidente soubesse da decisão por outros meios. Também conversou com o secretário especial da presidente Dilma Rousseff, Giles Azevedo, e expôs o que será oficializado agora de manhã em reunião da Executiva nacional do PSB. Mas um encontro vai depender dela.

Na conversa de ontem à noite num jantar que entrou pela madrugada, ao lado da esposa, dona Renata, que o acompanha neste momento mais delicado, Campos tranquilizava os aliados quanto à possibilidade de uma reação mais irada da presidente Dilma e do PT: “Não fui educado para ter medo. Fui educado com valores, para ter responsabilidade”.

Os socialistas comemoraram o que chamaram de “importante sentimento de liberdade” depois de um ano de constrangimentos e cobranças por parte do PT, PMDB e do Planalto. Consideram que os conselheiros de Dilma avaliaram mal e foram surpreendidos pelo desembarque neste momento. Mas não acham que haverá uma revanche, pois a ala liderada pelo ex-presidente Lula ainda espera uma aliança de apoio a Dilma num eventual segundo turno em 2014.

— Este é um momento de redução de danos. Acho que vão criar mais juízo. O presidente Lula já tinha avisado e não lhe ouviram: ‘não cutuquem Eduardo porque esse aí eu conheço’. Ele queria fazer a coisa de forma amigável, deixando passar o prazo de filiação partidária para conversar — comentou Eduardo na conversa de ontem à noite com os interlocutores.

— Combinaram mal. Não esperavam o rompimento com o PSB agora. Mas saímos na hora certa. Esperamos a presidente Dilma ficar forte de novo, depois da queda de junho. Agora ela está tão forte que está até brigando com o Obama — brincou o líder do PSB na Câmara, deputado Beto Albuquerque (RS).

E agora, qual será o próximo passo? Campos não teme um ataque maior do PT e do governo federal aos governadores do partido ou aos eventuais apoios que vêm sendo costurados em sua pré-candidatura a presidente em 2014. Acha que chegou a hora de todos os atores, dentro e fora do partido, inclusive os irmãos Ferreira Gomes, “botarem as fichas que têm na mesa”.

— Não tem essa estória de preferir este ou aquele. Agora cada um tem que enfrentar a realidade como ela é — comentou Campos no encontro com os aliados, referindo-se, inclusive à preferência da presidente Dilma e do PT de ter o tucano Aécio Neves como adversário, e não ele.

Para “fazer tudo direitinho”, depois da reunião preliminar com integrantes da cúpula do PSB, Campos também se reuniu com o ministro dos Portos, Leônidas Cristino, para lhe avisar que a Executiva chancelaria hoje a decisão de entregar os cargos. Ao contrário do que se previa, o indicado dos Ferreira Gomes não se opôs. Disse que concordava, porque se sentia numa situação constrangedora de ser tachado como “adesista”, em contraponto com o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, da cota de Campos no governo.

De licença médica para realizar uma cirurgia no olho, em São Paulo, o ministro Fernando Bezerra fez os exames preliminares, mas retornará a Brasília hoje para participar da reunião da Executiva. Volta em seguida a São Paulo e, depois da cirurgia, cumprirá a tarefa de entregar a carta de demissão.

— Estamos todos aliviados de vencer essa etapa. O PSB é o primeiro partido, em 10 anos e meio de governo, que tem coragem de entregar os cargos e partir para seu projeto próprio. O próximo passo? Fazer o PSB crescer — comentou Campos, antevendo o pós-rompimento da aliança com o PT.


LEIA AQUI, no Meu Araripe, o desenrolar dos fatos.
Com a decisão de Eduardo Campos, o cenário ficará mais nítido dentro de alguns dias. Inclusive sobre as candidaturas locais. O que está em curso, em todo Brasil, é uma aliança entre partidos de oposição e mesmo governistas para enfrentar a máquina federal controlada por petistas. Com a força das máquinas estaduais e municipais que controlam, Eduardo, Aécio e Marina levarão a eleição para o segundo turno, segundo pesquisas atuais. Nos planos do pernambucano, ele será o segundo mais votado e enfrentará Dilma.  PSB e o PSDB, agremiações que precisam somar força nos estados para não sofrerem perdas de cadeiras nas assembleias nem no Congresso, montaram estratégias semelhantes e até conjuntas em alguns estados, tudo para tranquilizar lideranças e evitar fugas neste momento de turbulências que antecede a data limite para troca de partidos.

A CARTA
“À Sua Excelência Senhora Dilma Rousseff

Em mãos.

Senhora Presidenta,

Desde 1989, quando da criação da “Frente Brasil Popular”, o Partido Socialista Brasileiro integra, juntamente com o Partido dos Trabalhadores e outros do campo da esquerda, a base política e social que, durante as sucessivas eleições presidenciais de 1989, 1994, 1998 e no segundo turno de 2002, apoiou e, finalmente, levou à Presidência da República, o companheiro Luís Inácio Lula da Silva, cujo governo contou com nossa participação, colaboração e sustentação, no Executivo e no Parlamento.

Convidado a ocupar funções governamentais, nosso partido contribuiu para os avanços econômicos e sociais proporcionados ao país pelo governo do honrado presidente Lula, dedicando seus melhores esforços e sua total lealdade nos momentos mais difíceis dos oito anos de mandato.

Em março de 2010, embora contássemos com um pré-candidato à presidência da República e fosse desejo manifesto de nossa base e das lideranças do partido o lançamento de candidatura própria, o PSB, a partir de uma profunda reflexão e discussão política com o companheiro Lula, abdicou dessa legítima pretensão e decidiu integrar a frente partidária que apoiou a candidatura de Vossa Excelência à Presidência da República.

Quando da formação do governo, Vossa Excelência convidou-nos para discutir nossa participação, ocasião em que manifestamos a possibilidade de apoiar sua administração sem necessariamente ocupar cargos. Vossa Excelência, entretanto, expressou o desejo de quadros do PSB na administração, com o que concordamos sem apresentar condicionantes.

Neste momento, temos sido atingidos, sistemática e repetidamente, por, comentários e opiniões, jamais negadas por quem quer seja, de que o PSB deveria entregar os cargos que ocupa na estrutura governamental, em face da possibilidade de, legitimamente, poder apresentar candidatura à presidência em 2014.

Longe de receber tais manifestações como ameaça, o Partido Socialista Brasileiro - que nunca se caracterizou pela prática do fisiologismo - reafirma seu desapego a cargos e posições na estrutura governamental, e reitera que seu apoio a qualquer governo jamais dependeu de cargos ou benesses de qualquer natureza, e sim do rumo estratégico adotado que, a nosso ver, deve guardar identidade com os valores que alicerçam a trajetória política do nosso partido.

Nossas divergências, todavia, não impediram nosso apoio ao governo de Vossa Excelência, mas pretendemos discutir com a sociedade, de forma mais ampla e livre.

O Partido Socialista Brasileiro, nos seus 60 anos de presença na vida política nacional, jamais transigiu ou negociou suas convicções e seus ideais programáticos.

Com longa tradição na luta pela democracia e pela justiça social, o PSB participou ativamente de importantes momentos da vida nacional, como a memorável campanha do “Petróleo é nosso”, a luta pela reforma agrária, a luta pelas 'Diretas Já' e pela democratização do país. Sempre nos inspiraram exemplos como os de nossos companheiros João Mangabeira, Hermes Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Evandro Lins e Silva, Antônio Houaiss, Miguel Arraes e Jamil Haddad.

É justamente pelo apego a essa história que o partido, nos últimos anos, vem merecendo o reconhecimento da sociedade brasileira refletido no seu crescimento nas sucessivas vitorias eleitorais.

Por todas essas razões, o PSB vem à presença de Vossa Excelência, formalmente, declinar de sua participação no governo, entregando os cargos que ora ocupa, ao mesmo tempo em que reafirma que permanecerá, como agora, em sua defesa no Congresso Nacional. Esta decisão não diz respeito a qualquer antecipação quanto a posicionamentos que haveremos de adotar no pleito eleitoral que se avizinha, visto que nossa estratégia – que não exclui a possibilidade de candidatura própria – será discutida nas instâncias próprias, considerando nosso programa e os mais elevados interesses do país e a luta pelo desenvolvimento com igualdade social.

Saudações Socialistas,

Eduardo Campos
Presidente Nacional do PSB.”

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